quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Homofobia: ansiedade aprendida


Ultimamente virou moda tentar desqualificar o significado da palavra homofobia. E vale tudo para provar que somos um país tolerante e amável e que homofobia é coisa de gayzista sem noção. Vale tudo mesmo! Até algumas interpretações, digamos...peculiares.

Homofobia, de homo (humano) e fobia (medo). Logo, homofobia não existe porque ninguém tem medo de humanos. (meu cachorro discorda)
Homofobia, de homo (igual) e fobia (medo). Logo, homofobia não existe e nem pode ser praticada por héteros já que seria a fobia de algo igual.
Homofobia, de homo (homem) e fobia (medo). Logo, homofobia não existe porque seria a fobia de seres do sexo masculino.

E por aí a fora, com definições das mais criativas. Mesmo quem analisa a palavra como Homo (de homossexualidade) e fobia (de medo) também afirma que homofobia não existe porque seria o medo patológico de homossexuais. Tudo bem que existam preconceitos, mas isso não é homofobia! Ou no máximo admitem que homofobia seria a expressão de violência física contra gays.

Eu não sou linguísta. E muito menos estamos falando de uma prova de português. Sou psicóloga e portanto minha abordagem será comportamental. Porque homofobia, não só existe, como vai muito além de comportamentos de violência física contra pessoas lgbt?

Primeiro vamos estabelecer o que é fobia. Diferente do que o senso comum preconiza, fobia não é medo. O medo é uma reação do organismo a algo que coloca nossa integridade física em perigo. Sentimos medo como uma defesa a uma situação de perigo real. É positivo e necessário ter medo. Fisicamente, o medo promove no organismo uma série de mudanças na química cerebral, que produzem um estado de alerta. Com medo, enxergamos e ouvimos melhor, temos mais força e reflexos de defesa mais apurados.  "Desligamos" tudo que não seja absolutamente necessário e concentramos tudo em escapar da situação de risco. E fobia?

A fobia é um estado de ansiedade aguda ou crônica, é uma resposta desmedida, intensa, focal e desproporcional ao estímulo. Medo é um estado normal do organismo. Fobia é um transtorno de ansiedade. A fobia tem diversas causas: pode ser a resposta a um trauma (como no stress pós traumático), pode ser uma alteração na química cerebral (transtornos de ansiedade inespecíficos) e pode ser comportamental, aprendida por repetição. O importante é estabelecer que medo é uma reação normal e esperada a um estímulo grave e fobia é uma reação ansiosa e desproporcional ao estímulo.

Esqueçamos os casos traumáticos e químicos e nos concentremos na fobia aprendida. Um exemplo clássico de fobia aprendida é o medo de barata. Coloque uma barata perto de um bebê de seis meses (não, não coloque. Isso é um exemplo retórico). O bebê não reagirá com nojo, medo ou angústia. Provavelmente vai achar aquele bicho engraçadinho e tentará pegar e até (arrrgh) levar a boca. Afinal é uma coisa minúscula!  Mas esse mesmo bebê pode ser exposto a reações ansiosas e completamente exageradas de adultos com fobia de barata. Convenhamos que não existe um motivo real para se ter medo de um inseto de menos de 5cm que pode ser facilmente esmagado. Mas quantas pessoas você conhece que já se machucaram ao fugir, completamente transtornados, de uma mísera barata? (se não conhece, prazer! eu já fiz isso)

O que a barata tem a ver com a homofobia? Quando um adulto demonstra intensa repulsa, ansiedade e desconforto na presença de homossexuais ele pode nem ter a intenção, mas seu comportamento comunica a criança que "aquilo" é algo a ser temido. E crianças aprendem muito mais por imitação que por qualquer discurso que você venha a fazer. Nós aprendemos homofobia com a sociedade. Ao rejeitar e esconder, ao não permitir que demonstrem afeto, ao afastar a criança do "tio estranho", nos xingamentos na escola...tudo isso reforça a ideia de que existe algo(que ninguém consegue definir o que é), inerentemente ruim, na homossexualidade.

A esmagadora maioria das pessoas não se tornará um assassino de gays porque foi ensinado a ter fobia deles. Somos bem mais complexos que isso. Talvez nem sequer reconheçamos em nós aquela sensação ansiosa, desconfortável, inquieta, ruim, na presença de um homossexual que "dá pinta". Acreditaremos firmemente que não é fobia. "Não tenho medo de barata, só acho um bicho nojento" Disse a pessoa que quase pula da janela do 5° andar para fugir da baratinha. "Não sou homofóbico, só não acho legal (fico constrangido, tenho nojo, fico ansioso) que eles beijem na frente da minha filha" Dirá o ator que nem percebe sua homofobia.

Homofobia não é medo de homossexuais. Homofobia é um estado ansioso, de maior ou menor intensidade, na presença de pessoas ou manifestações de afeto homossexual. Mas é muito mais. Porque conceitos extrapolam a simples semântica da palavra escrita. Homofobia é toda e qualquer atitude que tenha por objetivo diminuir os direitos de cidadãos LGBTs e que violem sua dignidade de pessoa humana. Sejam ou não de violência física.  Porque baratas a gente mata, mas seres humanos são outra coisa.

PS: você ficou incomodado com a foto lá em cima?

5 comentários:

Roberto disse...

Achei linda a foto "lá em cima". Uma manifestação de carinho e sensualidade entre dois seres humanos é sempre algo que me faz muito bem ver e mais ainda vivenciar.

Seu artigo é ótimo ao esclarecer a diferença que eu mesmo muitas vezes esqueço entre "medo" e "fobia".

Tenho a maior admiração e respeito pela psicologia quando praticada por profissionais sérios, que são a maioria.

Obrigado!

Quando nós pensamos disse...

Muito bom! Obrigado pela informação. Eu pretendo cursar psicologia, mas acima de tudo, o que foi mensionado no texto à cima me mostrou uma visão bem diferente do que eu mesmo pensava sobre a homofobia, fico sinceramente grato por poder aprender isto contigo.

http://www.facebook.com/profile.php?id=100003204503608&ref=tn_tnmn
Esse é meu facebook, adoraria acompanhar novas informações que você possa fornecer.
Passe bem, e parabéns pelo ótimo trabalho.

THE WIZARD disse...

Amei Litros o seu post. Vou compartilhar, bjocas

$ir. D@niel $urt@do disse...

Ale, Parabéns. Ótima postagem, bem conciso e direto, tocou nos pontos mais falaciosos usados pelos homofóbicos. Ah, e fiquei incomodado sim com a foto, queria tá lá...rsrsrsrsr

Bjão

Charles Donald Zink disse...

Excelente abordagem. Parabéns!

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